terça-feira, 30 de agosto de 2016

Ser em mim...


Ser em mim o fogo, que invade o peito, que encarna a alma, que esbofeteia os sentidos, que acorda e puxa para a vida, como uma declaração de insaciedade, uma chama que queima e não se apaga, que propaga o rastro, como pólvora a procura do pavio.

Ser em mim, esse tempo que clama, em alto e bom som, como um manifesto em praça pública ou um vento impetuoso, que expõe a alma e o corpo em carne viva, que solta e pulsa, que saí bagunçando tudo a sua volta, mudando os sentidos e a direção, revirando tudo do lugar.

Ser em mim o argumento, a súplica, o chamamento, a aceitação do que não se entende e assim me entregando, sem amontoar as inseguranças, não temer as armadilhas que se criam, produzidas na mente, como algozes, capazes de me fincar no chão, de sangrar a terra sob meus pés, de me sugar as forças, as resistências e me fazer cair de joelhos e ao abrir os olhos, me ver rendida, ante a constatação,  de que sou eu, somente eu, capaz de me matar e me reviver a cada passo.

Ser em mim um não disfarce, uma não revolta, um não confinamento, rindo, deixando que a impureza e a ingenuidade, não sejam pecados e que a embriaguez da absolvição, não me traga o peso da santidade, que seja impuro e castro,  que seja a rudeza e que eu não tema o desaninho, o abandono, que o vento venha e sopre entre as minhas narinas, o cheiro de terra molhada, regada com as lágrimas, geradas pela dor de pertencer a alguma coisa, que não se sabe bem, o que é...

Ser em mim a dor estancada, exaustivamente estagnada e depois de ser cansativamente turbilhão, eclodir em mim, vazia, ofegante, trêmula e me jogar rendida a sensação de se estar solta, livre, às cegas e sem pudor, sentir a alma aliviada, agarrada ferozmente a caminhada e não mais ao modo de andar, e, mesmo em meio aos atalhos, os mais tenebrosos possíveis, me agarrar a mim mesma e respirar.

Ser em mim, enfim, o toque, o mundo, o ponto de chegada e de partida, uma profunda e arriscada desventura, o silêncio do entardecer ao se descobrir com delicadeza, ser o espanto diante do inevitável, do terrível e correr à ele, acreditando que se pode sobreviver aos mistérios e as negações, por fim me entendendo falível e humana. E, mesmo através da dor, ser a passagem e a viagem, a paisagem para mim mesma, ser árvore alta e frondosa, ser sombra, descanso, refrigério, fluidez, aceitação e  assim ao me despedir, me encontrar...
Diana Lestan

sábado, 27 de agosto de 2016

Na lembrança...


E o que a gente vira quando vai embora de alguém? 
E o senhor respondeu:
- uns viram pó. Outros caem igual estrela do céu. 
Outros só viram a esquina.... 
E tem aqueles que nunca vão embora.
- Não? E eles ficam onde, senhor?
- Na lembrança!
Vanessa Leonardi

domingo, 7 de agosto de 2016

Sempre seria você...


 


E sentir-me frágil depois de tanto tempo, foi um choque inesperado.
Olhei-te com ternura, estávamos os dois lado a lado, mãos próximas e em um segundo, envoltas uma na outra, sua voz, seu sorriso, era tudo igual e seu cheiro, misturando ao meu, era como se eu nunca tivesse partido. E sentir-me frágil depois de tanto tempo, abalou-me, deixou-me desconcertada, era você, éramos nós dois, era tudo a nossa volta que fazia sentido naquela hora, mesmo negando-te por tanto tempo, percebi que era um caminho sem volta, eu fazia parte da sua história e você da minha... E chocou-me perceber que nada havia mudado dentro de mim, era você, por mais que eu tentasse resistir, negar, mentir, sempre seria você...

Diana Lestan