sexta-feira, 15 de julho de 2016

Vivia-se...


E quase sem querer, adormeceu... Mas não foi um simples adormecer, foi aquele que leva ao sonho ou simplesmente, ao acúmulo dos desejos que transitam pela alma. Acordou sobressaltada em seu próprio sonho, tudo era meio estranho, como se tivesse tendo um déjà vu, estava com seus sentidos apurados, em alerta, os sentimentos todos expostos, como que dependurados em praça pública. Ela caminhava e tudo estava tão diferente dentro dela, parecia que o medo já não mais importava, seu ser estava em descoberta, um pouco conformado, um pouco apaziguado, prosseguia em seu caminhar, ainda havia um pouco de dor, de cegueira, um pouco de escuridão ou ainda a falta de iluminação de algumas coisas, mas havia um corpo e com certeza uma alma sedenta. Queria o prazer de sentir e mesmo que não fosse naquele momento, haveria de existir um momento para si, alguma coisa a empurrava para frente, alguma coisa tinha despertado em seu ser, algo se desencadeara dentro dela e não tinha mais como parar esse processo...
E agora estava a espreita, mesmo sem pensar, sem ter certeza, ela se deixa cobrir, deixa que a mente a leve em um passeio, sente seu corpo, os cabelos soltos ao vento, a consciência cada vez mais clara, o frio se transforma em mornidão, a ausência se converte ao tempo. Ela avança, meio incrédula ainda. Já não precisa falar, já não precisa tocar e quanto ao cheiro, já não precisa cheirar a intimidade da noite, do dia, tudo se faz claro diante de seus olhos crédulos. Com a mãos entreabertas, com os lábios cerrados e com o olhar translúcido, se contempla, repassa cada detalhe em sua mente, bebe-se lentamente a si mesma, pequenos e espaçados goles... Era disso que necessitava, se encontrar espessa em si mesma, nadar em seus desejos, bebe-los.
Agora era toda completa, boca, garganta, estômago, vísceras, enfim, corpo. Agora era toda alma, mente, pensamentos, delírios, prazeres, desejos, sede, fome...
E caminha dentro de si, empurrada suavemente pelos seus anseios, caminha dentro de si, como quem caminha no mar, lenta e suavemente, com respeito e em alguns pontos, um pouco mais lúcida, ácida e dura.
E agora, via seus naufrágios, como se tivessem a beira do caminho, segue tocando-os um a um, reconhecendo cada ponto, cada perigo vivido, cada mar revolto, e, a compensação vem, em reconhecer cada dor, o que lhe provocou e em que a transformou. Sentia-se entre suas mãos, entre seus dedos, poros e cerne, fechava os olhos e se respirava, e, no ápice daquele sonho, já não era sonho, se sentia ser, balançava com delicadeza o corpo e bailava sobre a vida, num deslumbramento delirante, reconheceu-se, ela vivia agora, vivia a si mesma, pela primeira vez...

Diana Lestan


2 comentários:

  1. Um texto esteticamente muito belo... Parabéns.
    Beijos.

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    Respostas
    1. Obrigada, amiga Graça...

      Fico lisonjeada que tenha gostado, um elogio assim, vindo de uma talentosa poetisa, me envaidece muito...

      Brijo e um ótimo final de semana.

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