domingo, 31 de julho de 2016

Prece silenciosa...



E fechava os olhos para me desligar de tudo, como em uma prece silenciosa, pedia um pouco de resistência, apenas o suficiente para suportar o reboliço dentro do meu ser... E me desligava do mundo a minha volta, deixava que as lágrimas caíssem uma a uma, que trouxessem refrigério a minha alma já cansada, magoada e machucada... E me sentia vazia de mim mesma, oca da minha presença, da presença do mundo. E prostrava-me diante da noite, como à um amante confidente e derramava-me no imponderável, no impossível, no indiscutível, despedindo-me de mim... E eu era lagarta, pressa a um casulo, a um fiapo de esperança, esperando a metamorfose, esperando renascer...

Diana Lestan

sexta-feira, 29 de julho de 2016

E eu me vi assim...


E eu me vi de mãos atadas, presa a um sentimento, que eu queria expulsar de dentro de mim. Já fazia algum tempo, que os pensamentos haviam se desordenado, dando lugar a um instinto animal, não havia mais racionalidade, não havia mais como ponderar. Eu precisava gritar, sair correndo dali, me desvincilhar daquela armadilha, criada pela minha mente, pelos meus anseios tolos e nocivos.
E eu me vi jogada ao chão, as lágrimas lavando tudo, levando tudo e o meu único desejo era que os sentimentos, voltassem do jeito, que eram antes, não suportava mais viver em carne viva, me sentindo impotente e tola, como se nada mais fizesse sentido, no meio daquelas intensas dores sentidas no peito, que faziam o coração bater com ferocidade, como se quisesse sair pela boca, se derramar em pátio público, me expondo ainda mais.
E me vi assim de mãos atadas, jogada ao chão, com o coração saindo do peito, em carne viva, sem saber o que fazer, como agir e que passo dar, só queria que a dor passasse, que a calmaria voltasse, que as lembranças fossem arrancadas, apagadas e que eu não sentisse mais nada.

Diana Lestan

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Vivia-se...


E quase sem querer, adormeceu... Mas não foi um simples adormecer, foi aquele que leva ao sonho ou simplesmente, ao acúmulo dos desejos que transitam pela alma. Acordou sobressaltada em seu próprio sonho, tudo era meio estranho, como se tivesse tendo um déjà vu, estava com seus sentidos apurados, em alerta, os sentimentos todos expostos, como que dependurados em praça pública. Ela caminhava e tudo estava tão diferente dentro dela, parecia que o medo já não mais importava, seu ser estava em descoberta, um pouco conformado, um pouco apaziguado, prosseguia em seu caminhar, ainda havia um pouco de dor, de cegueira, um pouco de escuridão ou ainda a falta de iluminação de algumas coisas, mas havia um corpo e com certeza uma alma sedenta. Queria o prazer de sentir e mesmo que não fosse naquele momento, haveria de existir um momento para si, alguma coisa a empurrava para frente, alguma coisa tinha despertado em seu ser, algo se desencadeara dentro dela e não tinha mais como parar esse processo...
E agora estava a espreita, mesmo sem pensar, sem ter certeza, ela se deixa cobrir, deixa que a mente a leve em um passeio, sente seu corpo, os cabelos soltos ao vento, a consciência cada vez mais clara, o frio se transforma em mornidão, a ausência se converte ao tempo. Ela avança, meio incrédula ainda. Já não precisa falar, já não precisa tocar e quanto ao cheiro, já não precisa cheirar a intimidade da noite, do dia, tudo se faz claro diante de seus olhos crédulos. Com a mãos entreabertas, com os lábios cerrados e com o olhar translúcido, se contempla, repassa cada detalhe em sua mente, bebe-se lentamente a si mesma, pequenos e espaçados goles... Era disso que necessitava, se encontrar espessa em si mesma, nadar em seus desejos, bebe-los.
Agora era toda completa, boca, garganta, estômago, vísceras, enfim, corpo. Agora era toda alma, mente, pensamentos, delírios, prazeres, desejos, sede, fome...
E caminha dentro de si, empurrada suavemente pelos seus anseios, caminha dentro de si, como quem caminha no mar, lenta e suavemente, com respeito e em alguns pontos, um pouco mais lúcida, ácida e dura.
E agora, via seus naufrágios, como se tivessem a beira do caminho, segue tocando-os um a um, reconhecendo cada ponto, cada perigo vivido, cada mar revolto, e, a compensação vem, em reconhecer cada dor, o que lhe provocou e em que a transformou. Sentia-se entre suas mãos, entre seus dedos, poros e cerne, fechava os olhos e se respirava, e, no ápice daquele sonho, já não era sonho, se sentia ser, balançava com delicadeza o corpo e bailava sobre a vida, num deslumbramento delirante, reconheceu-se, ela vivia agora, vivia a si mesma, pela primeira vez...

Diana Lestan