sábado, 25 de junho de 2016

E no canto dessa sua ausência, é nela, que eu melhor o vejo


E o tempo, lá no canto dessa ausência, ouço um olhar. Às vezes, não sei ao certo a hora exata, mas também penso discernir um leve sorriso, de uma figura misteriosa, que me olha e consegue enxergar o mais profundo das minhas entranhas. É quase como se fosse um reconhecimento, como se ainda fosse um pedaço encoberto, envolto por uma seda fina, sendo rasgado lentamente, em uma noite clara. E posso vê-lo se aproximar vagarosamente, sem pressa, como se estivesse imóvel, mas sempre mais e mais próximo. E talvez o seu cheiro também se misture ao tempo, o vento se encarrega de trazê-lo, aroma raro, puro, cheiro que atiça o ar, que embriaga a cada canto, que me encanta. E eu me sinto na espreita da chegada, imagino seus passos, dados com uma calma que me inquieta, que me enrijece o corpo e me movo ou penso me mover, mas a mente me mantêm no lugar, a espera , como um presa a espera do predador. E olho-o fixamente, com um olhar baixo, temente, curioso, desejoso e percebo o seu olhar de volta, querendo me surpreender ou seria para me deixar com medo? Não, parece mais um olhar de abate, o que se dá a presa para acalma-la. E então me pergunto silenciosamente, por que não corro? Por que não fujo? Por que não grito?
 cada vez mais perto, a cada passo, a cada movimento preciso, vejo sua figura  imponente, sua forma, seu cheiro, a firmeza de cada passo. Não há obscuridade, nada que o desvie do caminho, mãos firmes, olhar firme, olhos que me entorpecem, tento me mover, mas não posso e não quero, eu preciso estar ali. Mas essa sua postura me intriga, me deixa indefesa, frágil, exposta, ele sabe da minha fugaz esperança e eu fecho os olhos, e, ouço o seu olhar, discirno o seu sorriso, toco no ar o seu cheiro e sinto seus passos, que estão apenas um toque de minhas mãos, mas eu sei que não devo tocá-lo, não ouso levantar a mão, eu apenas o imagino e o espero, no canto dessa sua ausência, é nela, que eu melhor o vejo.
Diana Lestan

9 comentários:

  1. Esteticamente maravilhoso. Tanto o texto como a imagem.
    Beijos.

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    1. Querida Graça,

      Obrigada, vindo de você, é um elogio maravilhoso, me sinto lisonjeada... Amiga, beijos e uma linda semana...

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  2. Lindo texto, Diana! Sensível e poético, nos remete a uma viagem pelas imagens narradas.
    Grande abraço, sucesso e ótimo final de semana!

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    1. Poeta Evandro,

      Obrigada, feliz que tenha gostado, senti-me lisonjeada, que tenha viajado em meu texto...

      Um abraço e uma ótima semana para você.

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  3. Olá, Diana!

    Tanto de você nesse fabuloso e bem escrito texto. É na ausência que sentimos melhor os afetos.

    Novo post, lá. obrigada...

    Beijos e bom domingo.

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    1. Olá, Linda e sensível CÉU!

      Sim, derramei um pouco de mim em cada linha escrita, um pouco do desejo, da espera, ausência e utopia... A ausência permite sentir-nos na nossa totalidade, nossos limites bem expostos e testados.

      Vou conferir seu novo post, mas com certeza, está maravilhoso, como sempre!

      Amiga, beijos e uma linda semana para você.

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    2. Oi, querida e doce Diana!

      É assim k fazem as grandes e sensíveis escritoras. As ausências nos desventram, entre aspas.

      Agradeço tua visitinha e tão carinhosas palavras, lá no blog.

      No próximo sábado, começarei minhas férias, mas se voce postar antes, me avise, tá? Em férias, estarei ausente da net.

      Beijinhos e boa semana.

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  4. Gosto mto das imagens k voce escolhe para abrilhantar teus posts. Qta sensualidade e sensibilidade!

    Beijinho, querida Diana!

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    1. Obrigada, linda CÉU,

      fico encabulada assim, porque seu blog é maravilhoso, tanto os seus textos quanto as imagens expostas lá...

      Querida CÉU, um beijinho no coração!

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