segunda-feira, 23 de maio de 2016

Silêncio


E era madrugada e ela sentia em seu coração um pouco de medo, comprimia seu corpo a janela, fazia frio e chovia lá fora, talvez fosse para balancear um pouco, as coisas que sentia dentro de si mesma... Ela sentia um pouco de medo, então se abraçava forte, respirava lentamente e esperava que o sol nascesse com seu esplendor.
E ela olhava pela janela, aquele horizonte chuvoso, mas seu olhar conseguia alcançar mais longe, revivia cenas antigas, eram lembranças que invadiam a sua mente, que atravessavam a sua alma e deixavam-na inquieta, seu ser estava inquieto, ela sabia que seu coração e sua alma sentiam da mesma forma, os dois conseguiam enxergar esses universos invisíveis, essas realidades alternativas, esses mundos que existiam dentro dela, mas uma dúvida ainda pairava em seu ser, que não deixava com que ela dormisse, conseguiria dominar esses mundos, porque a cada dia, eles falavam mais alto dentro dela e se sobrepunham cada vez mais, sobre suas próprias vontades e assim vivia atenta a cada grito que vinha de dentro... E, de tempos em tempos, ela olhava aquelas figuras conhecidas e dentre elas, uma se destacava, sentia o coração palpitar mais forte e o sangue jorrar mais forte e o seu ser se derramar mais forte, encarava aquela figura em um diálogo irracional, como se quisesse convencer a si mesma primeiro, que com o tempo, tudo perdera a importância e dizia em alto e bom som: "Digo-te, havia um tempo, que os nossos sorrisos se alcançavam, as nossas mãos seguiam um mesmo sentido, o beijo era exigente e fazia inclinação entre os nossos rostos, o desejo que neles permanecia, fazia ligação entre os nossos corpos.
Digo-te, houve esse tempo..." E sua voz calava e lhe  era caro, permanecer no silêncio, que o silêncio do outro lhe causava. Sobre o nada que não resta ou nunca existira, depositava a sua presença e o que mais lhe inquietava, não era o  silêncio do outro, o que mais lhe atormentava, era o fato de prosseguir existindo ali, pois só o que queria, era que seus pensamentos se aquietassem, que conseguisse acalmar a mente e aliviar o corpo, dessa figura insana, dessa ausência impetuosa, de uma presença que nunca existiu.
Olhava em volta e enxergava o silêncio, esse silêncio que era palpável, esse silêncio que abalava as suas palavras, sentia as lágrimas tímidas, que não impediam o gotejar do orvalho, sobre a relva sedenta do seu ser, dúvidas e incertezas incontidas, que engolia goela abaixo, insensíveis a toda essa sua vulnerabilidade, insensíveis a sua fragilidade, aos seus sentimentos expostos... Olhava em volta e acariciava o silêncio do outro, que lhe falava, que lhe chamava, que lhe alucinava e pedia aflita, inquieta, que o silêncio, se findasse em seu ser descoberto, porque ela sabia, já tinha o gosto amargo da prova, que quando se tocava uma ilusão, ela também nos tocava de volta, acontecia esse impregnar na alma, que dilacerava, que desnudava, que inquietava... Ela comprimia seu corpo a janela, fechava os olhos e murmurava baixinho: "Afinal, uma ilusão será sempre uma ilusão, por muitas vezes inconfessável, uma parte inalcançável de nossos mais profundos desejos, uma parte de nossas mazelas..." essa era a sua confissão...

Diana Lestan

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