segunda-feira, 30 de maio de 2016

Te espero


Jamais imaginei que um dia iria esperar alguém assim. Te espero. E me machuca confessar (porque, assim, ao escrever, te reconheço em mim). Te espero resignada. E imagino, tola que sou, sua voz, seu cheiro, seu riso, para que eu jamais me esqueça de ti, mas seria impossível esquecer, porque lembrar de ti, é lembrar do que me tornei ao seu respeito, uma espera...
E ouço a sua voz, e assim, meu ser se revira, se agita, me sinto devotada a sua imagem, enamorada por ela, aflita e desesperada, e, sinto a dor contínua (tão prazerosamente acolhida dentro de mim), de esperar sem certezas e nem expectativas, um esperar naturalmente, a razão pela qual miseravelmente sinto assim, você. Te confesso, sim, essa é uma espera, e é continuamente dolorosa, essa dor que calo em meu ser, que sinto todas às vezes ao respirar, que transborda em minha face, em meu corpo, no mais profundo da minha alma e que também me gera prazer, pelo simples fato de a ter. Tu sabes e mesmo que eu não a confessasse, não é mesmo? Tu sabes, o que despertaste em mim, e, mesmo andando em um terreno de areia movediça, mesmo a sombra de uma espera, mesmo a mercê desse silêncio, dessa tortura silenciosa, vivo nesse frágil mundo que criei a minha volta, uma camada fina de utopia, que me transpassa dia a dia, que me corta, rasga, desfaz e refaz mediante a ideia de sua existência. 
E fecho os olhos, choro. Te vejo longe e tão perto de mim, então te olho e me olho e me escondo de mim, e, desesperadamente tento fugir, deixar de estar aos seus pés, de te esperar, e, sinto que seria insuportável fugir, porque você já está aqui em mim. E me torno tudo que tu queres, um excesso, um desequilíbrio e enfim uma calma, acuada e resignada criatura, um contraste manipulável em suas mãos. Mas o que sinto, vai muito além da ideia da espera, porque não vejo enfim, outra qualquer possibilidade, a não ser essa. E mesmo te esperando excessivamente, sem contudo te limitar, te mitificar, vivo um confronto com a realidade fora de mim, porque a realidade não é outra além dessa, uma dor, um incomodo, uma espera agonizante (e em secreto essa ideia prazerosa, de estar contigo a todo tempo dentro de mim). E eu confesso a ti, e vou além das palavras que te escrevo ou dos desejos que me despertas, além do medo que por vezes sinto, medo irracional, de animal selvagem acuado e confuso, és tu, és simplesmente tu que estás em tudo, mesmo quando ainda sou espera, mesmo quando ainda longe e incorpóreo, és tu que estás em mim.

Diana Lestan

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Silêncio


E era madrugada e ela sentia em seu coração um pouco de medo, comprimia seu corpo a janela, fazia frio e chovia lá fora, talvez fosse para balancear um pouco, as coisas que sentia dentro de si mesma... Ela sentia um pouco de medo, então se abraçava forte, respirava lentamente e esperava que o sol nascesse com seu esplendor.
E ela olhava pela janela, aquele horizonte chuvoso, mas seu olhar conseguia alcançar mais longe, revivia cenas antigas, eram lembranças que invadiam a sua mente, que atravessavam a sua alma e deixavam-na inquieta, seu ser estava inquieto, ela sabia que seu coração e sua alma sentiam da mesma forma, os dois conseguiam enxergar esses universos invisíveis, essas realidades alternativas, esses mundos que existiam dentro dela, mas uma dúvida ainda pairava em seu ser, que não deixava com que ela dormisse, conseguiria dominar esses mundos, porque a cada dia, eles falavam mais alto dentro dela e se sobrepunham cada vez mais, sobre suas próprias vontades e assim vivia atenta a cada grito que vinha de dentro... E, de tempos em tempos, ela olhava aquelas figuras conhecidas e dentre elas, uma se destacava, sentia o coração palpitar mais forte e o sangue jorrar mais forte e o seu ser se derramar mais forte, encarava aquela figura em um diálogo irracional, como se quisesse convencer a si mesma primeiro, que com o tempo, tudo perdera a importância e dizia em alto e bom som: "Digo-te, havia um tempo, que os nossos sorrisos se alcançavam, as nossas mãos seguiam um mesmo sentido, o beijo era exigente e fazia inclinação entre os nossos rostos, o desejo que neles permanecia, fazia ligação entre os nossos corpos.
Digo-te, houve esse tempo..." E sua voz calava e lhe  era caro, permanecer no silêncio, que o silêncio do outro lhe causava. Sobre o nada que não resta ou nunca existira, depositava a sua presença e o que mais lhe inquietava, não era o  silêncio do outro, o que mais lhe atormentava, era o fato de prosseguir existindo ali, pois só o que queria, era que seus pensamentos se aquietassem, que conseguisse acalmar a mente e aliviar o corpo, dessa figura insana, dessa ausência impetuosa, de uma presença que nunca existiu.
Olhava em volta e enxergava o silêncio, esse silêncio que era palpável, esse silêncio que abalava as suas palavras, sentia as lágrimas tímidas, que não impediam o gotejar do orvalho, sobre a relva sedenta do seu ser, dúvidas e incertezas incontidas, que engolia goela abaixo, insensíveis a toda essa sua vulnerabilidade, insensíveis a sua fragilidade, aos seus sentimentos expostos... Olhava em volta e acariciava o silêncio do outro, que lhe falava, que lhe chamava, que lhe alucinava e pedia aflita, inquieta, que o silêncio, se findasse em seu ser descoberto, porque ela sabia, já tinha o gosto amargo da prova, que quando se tocava uma ilusão, ela também nos tocava de volta, acontecia esse impregnar na alma, que dilacerava, que desnudava, que inquietava... Ela comprimia seu corpo a janela, fechava os olhos e murmurava baixinho: "Afinal, uma ilusão será sempre uma ilusão, por muitas vezes inconfessável, uma parte inalcançável de nossos mais profundos desejos, uma parte de nossas mazelas..." essa era a sua confissão...

Diana Lestan

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Olho nos teus olhos...


"Olho nos teus olhos
e me aprofundo,
me perco,
deságuo,
me desfaço
líquida,
no profundo,
tenebroso,
insano,
e tempestuoso
mar dos teus olhos."

Diana Lestan

terça-feira, 3 de maio de 2016

Respiro um corpo


Respiro um corpo,
um rosto,
uma voz que cala em mim.
Respiro essa parte
intacta,
cheia de medos,
pintada,
criada,
recriada,
inúmeras vezes
despedaçada,
rasgada,
apagada,
escondida
por mim,
presa
em mim.

Diana Lestan