terça-feira, 8 de novembro de 2016

Somos assim...


Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. 
Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, 
a ausência de certezas. 
Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. 
Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

Fiódor Dostoiévski

sábado, 17 de setembro de 2016

E ainda que doa...


Sentir você aqui, dentro de mim, mesmo longe, é como sentir uma brisa suave tocando o meu rosto e me lembrando que certas coisas ainda valem a pena.
Sentir você aqui, dentro de mim, é viver essa constante contradição, é saber que não posso partir, que não posso simplesmente virar às costas e esquecer, é confessar a minha fraqueza quanto a você.
Te olhar, tocar teu rosto, te beijar, sentir tua respiração, são lembranças que queimam em meu corpo, que povoam a minha mente e que alimentam a minha alma, já um pouco cansada e desacreditada.
Não sei dizer, o que será do dia de amanhã, do depois de amanhã e dos outros que virão, não tenho muitas certezas, as que tenho, caem por terra, quando estou com você, só sei que há esses momentos, que ficamos juntos, que somos só nós dois, que você está comigo e me faz perceber o quanto sou sua, mesmo que depois eu negue, mesmo que depois eu minta para mim mesma, mesmo que depois eu feche os olhos e finja que nada aconteceu, que foi apenas um sonho, mesmo assim, teu toque ainda queima em mim, o calor de tuas mãos na minha pele, o som da tua voz e o meu delírio, mesmo que eu negue, não consigo deixar de desejar, o prazer e a dor de querer estar com você.
E ainda que doa, eu não consigo resistir, mesmo que o desejo machuque, que o meu corpo queime todo, dentro de mim, ainda assim, o meu mundo toma outra forma, cada vez que estou com você... E é quando você vem, me toma em teus braços, me envolve, mina todas as minhas resistências, eu me vejo fazer sentido e me perco completamente.
Diana Lestan


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Ser em mim...


Ser em mim o fogo, que invade o peito, que encarna a alma, que esbofeteia os sentidos, que acorda e puxa para a vida, como uma declaração de insaciedade, uma chama que queima e não se apaga, que propaga o rastro, como pólvora a procura do pavio.

Ser em mim, esse tempo que clama, em alto e bom som, como um manifesto em praça pública ou um vento impetuoso, que expõe a alma e o corpo em carne viva, que solta e pulsa, que saí bagunçando tudo a sua volta, mudando os sentidos e a direção, revirando tudo do lugar.

Ser em mim o argumento, a súplica, o chamamento, a aceitação do que não se entende e assim me entregando, sem amontoar as inseguranças, não temer as armadilhas que se criam, produzidas na mente, como algozes, capazes de me fincar no chão, de sangrar a terra sob meus pés, de me sugar as forças, as resistências e me fazer cair de joelhos e ao abrir os olhos, me ver rendida, ante a constatação,  de que sou eu, somente eu, capaz de me matar e me reviver a cada passo.

Ser em mim um não disfarce, uma não revolta, um não confinamento, rindo, deixando que a impureza e a ingenuidade, não sejam pecados e que a embriaguez da absolvição, não me traga o peso da santidade, que seja impuro e castro,  que seja a rudeza e que eu não tema o desaninho, o abandono, que o vento venha e sopre entre as minhas narinas, o cheiro de terra molhada, regada com as lágrimas, geradas pela dor de pertencer a alguma coisa, que não se sabe bem, o que é...

Ser em mim a dor estancada, exaustivamente estagnada e depois de ser cansativamente turbilhão, eclodir em mim, vazia, ofegante, trêmula e me jogar rendida a sensação de se estar solta, livre, às cegas e sem pudor, sentir a alma aliviada, agarrada ferozmente a caminhada e não mais ao modo de andar, e, mesmo em meio aos atalhos, os mais tenebrosos possíveis, me agarrar a mim mesma e respirar.

Ser em mim, enfim, o toque, o mundo, o ponto de chegada e de partida, uma profunda e arriscada desventura, o silêncio do entardecer ao se descobrir com delicadeza, ser o espanto diante do inevitável, do terrível e correr à ele, acreditando que se pode sobreviver aos mistérios e as negações, por fim me entendendo falível e humana. E, mesmo através da dor, ser a passagem e a viagem, a paisagem para mim mesma, ser árvore alta e frondosa, ser sombra, descanso, refrigério, fluidez, aceitação e  assim ao me despedir, me encontrar...
Diana Lestan

sábado, 27 de agosto de 2016

Na lembrança...


E o que a gente vira quando vai embora de alguém? 
E o senhor respondeu:
- uns viram pó. Outros caem igual estrela do céu. 
Outros só viram a esquina.... 
E tem aqueles que nunca vão embora.
- Não? E eles ficam onde, senhor?
- Na lembrança!
Vanessa Leonardi

domingo, 7 de agosto de 2016

Sempre seria você...


 


E sentir-me frágil depois de tanto tempo, foi um choque inesperado.
Olhei-te com ternura, estávamos os dois lado a lado, mãos próximas e em um segundo, envoltas uma na outra, sua voz, seu sorriso, era tudo igual e seu cheiro, misturando ao meu, era como se eu nunca tivesse partido. E sentir-me frágil depois de tanto tempo, abalou-me, deixou-me desconcertada, era você, éramos nós dois, era tudo a nossa volta que fazia sentido naquela hora, mesmo negando-te por tanto tempo, percebi que era um caminho sem volta, eu fazia parte da sua história e você da minha... E chocou-me perceber que nada havia mudado dentro de mim, era você, por mais que eu tentasse resistir, negar, mentir, sempre seria você...

Diana Lestan

domingo, 31 de julho de 2016

Prece silenciosa...



E fechava os olhos para me desligar de tudo, como em uma prece silenciosa, pedia um pouco de resistência, apenas o suficiente para suportar o reboliço dentro do meu ser... E me desligava do mundo a minha volta, deixava que as lágrimas caíssem uma a uma, que trouxessem refrigério a minha alma já cansada, magoada e machucada... E me sentia vazia de mim mesma, oca da minha presença, da presença do mundo. E prostrava-me diante da noite, como à um amante confidente e derramava-me no imponderável, no impossível, no indiscutível, despedindo-me de mim... E eu era lagarta, pressa a um casulo, a um fiapo de esperança, esperando a metamorfose, esperando renascer...

Diana Lestan

sexta-feira, 29 de julho de 2016

E eu me vi assim...


E eu me vi de mãos atadas, presa a um sentimento, que eu queria expulsar de dentro de mim. Já fazia algum tempo, que os pensamentos haviam se desordenado, dando lugar a um instinto animal, não havia mais racionalidade, não havia mais como ponderar. Eu precisava gritar, sair correndo dali, me desvincilhar daquela armadilha, criada pela minha mente, pelos meus anseios tolos e nocivos.
E eu me vi jogada ao chão, as lágrimas lavando tudo, levando tudo e o meu único desejo era que os sentimentos, voltassem do jeito, que eram antes, não suportava mais viver em carne viva, me sentindo impotente e tola, como se nada mais fizesse sentido, no meio daquelas intensas dores sentidas no peito, que faziam o coração bater com ferocidade, como se quisesse sair pela boca, se derramar em pátio público, me expondo ainda mais.
E me vi assim de mãos atadas, jogada ao chão, com o coração saindo do peito, em carne viva, sem saber o que fazer, como agir e que passo dar, só queria que a dor passasse, que a calmaria voltasse, que as lembranças fossem arrancadas, apagadas e que eu não sentisse mais nada.

Diana Lestan

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Vivia-se...


E quase sem querer, adormeceu... Mas não foi um simples adormecer, foi aquele que leva ao sonho ou simplesmente, ao acúmulo dos desejos que transitam pela alma. Acordou sobressaltada em seu próprio sonho, tudo era meio estranho, como se tivesse tendo um déjà vu, estava com seus sentidos apurados, em alerta, os sentimentos todos expostos, como que dependurados em praça pública. Ela caminhava e tudo estava tão diferente dentro dela, parecia que o medo já não mais importava, seu ser estava em descoberta, um pouco conformado, um pouco apaziguado, prosseguia em seu caminhar, ainda havia um pouco de dor, de cegueira, um pouco de escuridão ou ainda a falta de iluminação de algumas coisas, mas havia um corpo e com certeza uma alma sedenta. Queria o prazer de sentir e mesmo que não fosse naquele momento, haveria de existir um momento para si, alguma coisa a empurrava para frente, alguma coisa tinha despertado em seu ser, algo se desencadeara dentro dela e não tinha mais como parar esse processo...
E agora estava a espreita, mesmo sem pensar, sem ter certeza, ela se deixa cobrir, deixa que a mente a leve em um passeio, sente seu corpo, os cabelos soltos ao vento, a consciência cada vez mais clara, o frio se transforma em mornidão, a ausência se converte ao tempo. Ela avança, meio incrédula ainda. Já não precisa falar, já não precisa tocar e quanto ao cheiro, já não precisa cheirar a intimidade da noite, do dia, tudo se faz claro diante de seus olhos crédulos. Com a mãos entreabertas, com os lábios cerrados e com o olhar translúcido, se contempla, repassa cada detalhe em sua mente, bebe-se lentamente a si mesma, pequenos e espaçados goles... Era disso que necessitava, se encontrar espessa em si mesma, nadar em seus desejos, bebe-los.
Agora era toda completa, boca, garganta, estômago, vísceras, enfim, corpo. Agora era toda alma, mente, pensamentos, delírios, prazeres, desejos, sede, fome...
E caminha dentro de si, empurrada suavemente pelos seus anseios, caminha dentro de si, como quem caminha no mar, lenta e suavemente, com respeito e em alguns pontos, um pouco mais lúcida, ácida e dura.
E agora, via seus naufrágios, como se tivessem a beira do caminho, segue tocando-os um a um, reconhecendo cada ponto, cada perigo vivido, cada mar revolto, e, a compensação vem, em reconhecer cada dor, o que lhe provocou e em que a transformou. Sentia-se entre suas mãos, entre seus dedos, poros e cerne, fechava os olhos e se respirava, e, no ápice daquele sonho, já não era sonho, se sentia ser, balançava com delicadeza o corpo e bailava sobre a vida, num deslumbramento delirante, reconheceu-se, ela vivia agora, vivia a si mesma, pela primeira vez...

Diana Lestan


quinta-feira, 30 de junho de 2016

Destino...



Estamos presos a um destino, a um caminho e por mais que tentemos atalhos, a estrada sempre dá um jeito de nos colocar novamente fora do desvio. Serão os acasos, as coincidências e discrepâncias, anomalias do caminho ou tudo acontece como deve acontecer?

Somos marionetes na mão do destino e no auge de nossa ignorância, pensamos controlar tudo, quando é exatamente o contrário, é ele que nos tem nas mãos.

Diana Lestan

sábado, 25 de junho de 2016

E no canto dessa sua ausência, é nela, que eu melhor o vejo


E o tempo, lá no canto dessa ausência, ouço um olhar. Às vezes, não sei ao certo a hora exata, mas também penso discernir um leve sorriso, de uma figura misteriosa, que me olha e consegue enxergar o mais profundo das minhas entranhas. É quase como se fosse um reconhecimento, como se ainda fosse um pedaço encoberto, envolto por uma seda fina, sendo rasgado lentamente, em uma noite clara. E posso vê-lo se aproximar vagarosamente, sem pressa, como se estivesse imóvel, mas sempre mais e mais próximo. E talvez o seu cheiro também se misture ao tempo, o vento se encarrega de trazê-lo, aroma raro, puro, cheiro que atiça o ar, que embriaga a cada canto, que me encanta. E eu me sinto na espreita da chegada, imagino seus passos, dados com uma calma que me inquieta, que me enrijece o corpo e me movo ou penso me mover, mas a mente me mantêm no lugar, a espera , como um presa a espera do predador. E olho-o fixamente, com um olhar baixo, temente, curioso, desejoso e percebo o seu olhar de volta, querendo me surpreender ou seria para me deixar com medo? Não, parece mais um olhar de abate, o que se dá a presa para acalma-la. E então me pergunto silenciosamente, por que não corro? Por que não fujo? Por que não grito?
 cada vez mais perto, a cada passo, a cada movimento preciso, vejo sua figura  imponente, sua forma, seu cheiro, a firmeza de cada passo. Não há obscuridade, nada que o desvie do caminho, mãos firmes, olhar firme, olhos que me entorpecem, tento me mover, mas não posso e não quero, eu preciso estar ali. Mas essa sua postura me intriga, me deixa indefesa, frágil, exposta, ele sabe da minha fugaz esperança e eu fecho os olhos, e, ouço o seu olhar, discirno o seu sorriso, toco no ar o seu cheiro e sinto seus passos, que estão apenas um toque de minhas mãos, mas eu sei que não devo tocá-lo, não ouso levantar a mão, eu apenas o imagino e o espero, no canto dessa sua ausência, é nela, que eu melhor o vejo.
Diana Lestan

segunda-feira, 6 de junho de 2016

E você se engana...


E você se engana, ingênua que é, tentando fazer de uma ilusão algo palpável, tentando segurar a fumaça entre os dedos, mas a vê dissolver dia após dia.
E você se engana, boba que é, fazendo de cada instante, minuto importante, mas as mãos estão vazias, o corpo trêmulo com o frio da ausência e no ar se dissipa as dúvidas, trazendo o pensamento derradeiro.
E você se cansa de se enganar, saí desarrumando tudo de lugar, jogando ao chão seus detalhes e suas confusões descomunais, e, se esvai na penumbra do seu ser, que punge até que se finda, se desfaça, havendo apenas aquela luz aparentemente calma e fugaz, da certeza que já não existe mais,  que se desfaz.

Diana Lestan


domingo, 5 de junho de 2016

E há momentos...


E há momentos, em que eu sinto, que entendo tudo e no momento seguinte, sinto que todas as dúvidas, me invadem a mente.

E há momentos, em que eu sinto meu ser, se revirar todo, experimento um não me entender, um rasgar íntimo de todas as minhas convicções, como se minhas raízes, estivessem sendo arrancadas uma a uma e no lugar delas, outras raízes plantadas e alimentadas, com uma força ainda desconhecida à mim, contudo, ansiada de forma extrema, igual a qual, um condenado deseja a centelha da paz, que há na absolvição, difícil não ser despertada, aterrorizada, ao ponto de querer olhar o abismo, de querer provar o gosto, o mistério de se sentir ao extremo, de forma fatal e absoluta, ver a cerne exposta e nua.
E há momentos, em que bendigo o que sinto, em que não me entendo e que me entendo fora de mim, em que me dói o retirar e plantar das raízes, a visão do abismo, o gosto misterioso da absolvição, e, a fatal e inevitável rendição.

Diana Lestan



quinta-feira, 2 de junho de 2016

Cravadas na alma...



Mas ela correu pelas ruas, estava nervosa, aflita, como se algo acendesse dentro dela, um pavio de pólvora, uma confusão, um queimar intenso vindo de sei lá onde,  atravessou aquela rua com o semáforo aberto, caminhando entre os carros, tinha uma necessidade urgente de chegar, de passar por aquela porta, tirar aquela roupa que agoniava seu corpo, se olhar no espelho e procurar os tais indícios... Será que ela conseguiria vê-los? Será que se revelariam a ela, assim, de bom grado? Ela respirou fundo, passou a mão na maçaneta, destrancou a porta, entrou em casa e pois em prática seu plano sórdido, e, ao se despir, em pé ante ao espelho/vida, com olhos de lince se examinava exaustivamente e nada, depois de algum tempo, entendeu finalmente, de forma fabulosa e terrível, que aquelas suas marcas, não eram visíveis na carne, estavam cravadas na alma, um lugar onde perduravam com mais intensidade...

Diana Lestan

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Quando penso em você...


Gosto desses sentires que me invadem, que me atravessam o peito, quando penso em você, esses sentires que me atiçam a mente, que me fazem falar e pensar em tudo e chegar a conclusão de nada. Vez por outra, sou assaltada por esses pensamentos, que me inquietam a pele, que me vestem a pele, que mesclam a pele de vontades, pele/alma. E me vejo atordoada, perdida nesses lugares, à visitar dentro de ti e me movo, corro de um ponto ao outro, me canso de correr e me volto a caminhar. E fecho os olhos e sinto a liberdade de existir, de poder ser eu, poder ser você ou ele ou ela, quem eu quiser ser, sem me deter, sem me envergonhar. Mas há receios, há incertezas, há dúvidas e também há um desejo descoberto, que empurra, que encoraja, que mesmo no mais desesperador silêncio, chama, clama, insiste, persiste, respira lá dentro, no mais profundo das minhas entranhas e me estranha, me abraça, me atravessando a pele, o peito entre-aberto, a alma, quando penso em você.

Diana Lestan

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Te espero


Jamais imaginei que um dia iria esperar alguém assim. Te espero. E me machuca confessar (porque, assim, ao escrever, te reconheço em mim). Te espero resignada. E imagino, tola que sou, sua voz, seu cheiro, seu riso, para que eu jamais me esqueça de ti, mas seria impossível esquecer, porque lembrar de ti, é lembrar do que me tornei ao seu respeito, uma espera...
E ouço a sua voz, e assim, meu ser se revira, se agita, me sinto devotada a sua imagem, enamorada por ela, aflita e desesperada, e, sinto a dor contínua (tão prazerosamente acolhida dentro de mim), de esperar sem certezas e nem expectativas, um esperar naturalmente, a razão pela qual miseravelmente sinto assim, você. Te confesso, sim, essa é uma espera, e é continuamente dolorosa, essa dor que calo em meu ser, que sinto todas às vezes ao respirar, que transborda em minha face, em meu corpo, no mais profundo da minha alma e que também me gera prazer, pelo simples fato de a ter. Tu sabes e mesmo que eu não a confessasse, não é mesmo? Tu sabes, o que despertaste em mim, e, mesmo andando em um terreno de areia movediça, mesmo a sombra de uma espera, mesmo a mercê desse silêncio, dessa tortura silenciosa, vivo nesse frágil mundo que criei a minha volta, uma camada fina de utopia, que me transpassa dia a dia, que me corta, rasga, desfaz e refaz mediante a ideia de sua existência. 
E fecho os olhos, choro. Te vejo longe e tão perto de mim, então te olho e me olho e me escondo de mim, e, desesperadamente tento fugir, deixar de estar aos seus pés, de te esperar, e, sinto que seria insuportável fugir, porque você já está aqui em mim. E me torno tudo que tu queres, um excesso, um desequilíbrio e enfim uma calma, acuada e resignada criatura, um contraste manipulável em suas mãos. Mas o que sinto, vai muito além da ideia da espera, porque não vejo enfim, outra qualquer possibilidade, a não ser essa. E mesmo te esperando excessivamente, sem contudo te limitar, te mitificar, vivo um confronto com a realidade fora de mim, porque a realidade não é outra além dessa, uma dor, um incomodo, uma espera agonizante (e em secreto essa ideia prazerosa, de estar contigo a todo tempo dentro de mim). E eu confesso a ti, e vou além das palavras que te escrevo ou dos desejos que me despertas, além do medo que por vezes sinto, medo irracional, de animal selvagem acuado e confuso, és tu, és simplesmente tu que estás em tudo, mesmo quando ainda sou espera, mesmo quando ainda longe e incorpóreo, és tu que estás em mim.

Diana Lestan

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Silêncio


E era madrugada e ela sentia em seu coração um pouco de medo, comprimia seu corpo a janela, fazia frio e chovia lá fora, talvez fosse para balancear um pouco, as coisas que sentia dentro de si mesma... Ela sentia um pouco de medo, então se abraçava forte, respirava lentamente e esperava que o sol nascesse com seu esplendor.
E ela olhava pela janela, aquele horizonte chuvoso, mas seu olhar conseguia alcançar mais longe, revivia cenas antigas, eram lembranças que invadiam a sua mente, que atravessavam a sua alma e deixavam-na inquieta, seu ser estava inquieto, ela sabia que seu coração e sua alma sentiam da mesma forma, os dois conseguiam enxergar esses universos invisíveis, essas realidades alternativas, esses mundos que existiam dentro dela, mas uma dúvida ainda pairava em seu ser, que não deixava com que ela dormisse, conseguiria dominar esses mundos, porque a cada dia, eles falavam mais alto dentro dela e se sobrepunham cada vez mais, sobre suas próprias vontades e assim vivia atenta a cada grito que vinha de dentro... E, de tempos em tempos, ela olhava aquelas figuras conhecidas e dentre elas, uma se destacava, sentia o coração palpitar mais forte e o sangue jorrar mais forte e o seu ser se derramar mais forte, encarava aquela figura em um diálogo irracional, como se quisesse convencer a si mesma primeiro, que com o tempo, tudo perdera a importância e dizia em alto e bom som: "Digo-te, havia um tempo, que os nossos sorrisos se alcançavam, as nossas mãos seguiam um mesmo sentido, o beijo era exigente e fazia inclinação entre os nossos rostos, o desejo que neles permanecia, fazia ligação entre os nossos corpos.
Digo-te, houve esse tempo..." E sua voz calava e lhe  era caro, permanecer no silêncio, que o silêncio do outro lhe causava. Sobre o nada que não resta ou nunca existira, depositava a sua presença e o que mais lhe inquietava, não era o  silêncio do outro, o que mais lhe atormentava, era o fato de prosseguir existindo ali, pois só o que queria, era que seus pensamentos se aquietassem, que conseguisse acalmar a mente e aliviar o corpo, dessa figura insana, dessa ausência impetuosa, de uma presença que nunca existiu.
Olhava em volta e enxergava o silêncio, esse silêncio que era palpável, esse silêncio que abalava as suas palavras, sentia as lágrimas tímidas, que não impediam o gotejar do orvalho, sobre a relva sedenta do seu ser, dúvidas e incertezas incontidas, que engolia goela abaixo, insensíveis a toda essa sua vulnerabilidade, insensíveis a sua fragilidade, aos seus sentimentos expostos... Olhava em volta e acariciava o silêncio do outro, que lhe falava, que lhe chamava, que lhe alucinava e pedia aflita, inquieta, que o silêncio, se findasse em seu ser descoberto, porque ela sabia, já tinha o gosto amargo da prova, que quando se tocava uma ilusão, ela também nos tocava de volta, acontecia esse impregnar na alma, que dilacerava, que desnudava, que inquietava... Ela comprimia seu corpo a janela, fechava os olhos e murmurava baixinho: "Afinal, uma ilusão será sempre uma ilusão, por muitas vezes inconfessável, uma parte inalcançável de nossos mais profundos desejos, uma parte de nossas mazelas..." essa era a sua confissão...

Diana Lestan

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Olho nos teus olhos...


"Olho nos teus olhos
e me aprofundo,
me perco,
deságuo,
me desfaço
líquida,
no profundo,
tenebroso,
insano,
e tempestuoso
mar dos teus olhos."

Diana Lestan

terça-feira, 3 de maio de 2016

Respiro um corpo


Respiro um corpo,
um rosto,
uma voz que cala em mim.
Respiro essa parte
intacta,
cheia de medos,
pintada,
criada,
recriada,
inúmeras vezes
despedaçada,
rasgada,
apagada,
escondida
por mim,
presa
em mim.

Diana Lestan